A cultura brasileira perdeu uma de suas vozes e presenças mais marcantes com a morte da atriz Laura Cardoso, aos 98 anos, em São Paulo. Com uma carreira monumental que se estendeu por mais de oito décadas, a veterana consagrou-se como uma referência absoluta na arte de interpretar e dar vida a histórias inesquecíveis em diferentes mídias.
A confirmação de sua partida comoveu colegas de profissão, familiares e gerações de fãs que acompanharam seus papéis no rádio, no teatro, no cinema e na televisão. O encerramento de sua jornada deixa um vazio imenso na dramaturgia nacional, mas consolida um acervo artístico de valor inestimável para a história da comunicação e do entretenimento no Brasil.
Do rádio à televisão: a origem de uma narradora nata
Nascida em 13 de setembro de 1927 no tradicional bairro do Bexiga, na região central de São Paulo, Laurinda de Jesus Cardoso era filha de imigrantes portugueses. Desde a infância, a pequena Laurinda já demonstrava uma vocação natural para o universo das histórias e das atuações, transformando as brincadeiras com os amigos de infância em verdadeiros ensaios teatrais no bairro.
Sua entrada oficial no meio artístico aconteceu ainda na juventude, aos 15 anos de idade, ao ingressar no universo das radionovelas pela Rádio Cosmos. O veículo rádio, na época, representava o principal meio de massa para a difusão de narrativas dramáticas e literatura oral, exigindo dos atores uma capacidade técnica apurada para transmitir emoção apenas por meio da voz e da entonação.
Com o advento da televisão no país, Laura Cardoso participou ativamente da transição das artes cênicas para as telas. Em 1950, estreou nos teleteatros da extinta TV Tupi, formato pioneiro que adaptava clássicos da dramaturgia e da literatura para transmissões ao vivo. Essa bagagem inicial no rádio e no teleteatro serviu como base para a construção de sua versatilidade cênica ao longo das décadas seguintes. Para saber mais sobre a evolução das produções televisivas no país, vale consultar o acervo da Wikipédia sobre a história da dramaturgia brasileira.
Grandes papéis que marcaram gerações de telespectadores
Ao longo de mais de 80 anos de trabalho contínuo, a artista acumula em seu currículo mais de 100 títulos, abrangendo cerca de 60 novelas, 30 produções cinematográficas e uma quantidade expressiva de peças teatrais. Sua habilidade em transitar entre o cômico e o dramático permitiu que ela interpretasse figuras extremamente populares e memoráveis.
Entre os trabalhos de maior impacto na televisão brasileira, destacam-se atuações em obras de grande alcance popular, como:
- Mulheres de Areia: em que viveu a marcante Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel;
- Gabriela: novela em que interpretou a inesquecível e moralista Doroteia;
- Chocolate com Pimenta: produção na qual deu vida à carismática caipira Dona Carmen;
- Explode Coração: no papel da cigana Soraia;
- A Viagem e Fera Radical: obras de grande sucesso do público que contaram com sua presença marcante no elenco.
Sua última participação em folhetins diários ocorreu em 2019, na novela A Dona do Pedaço. Em todas essas produções, a atriz demonstrou um domínio técnico impecável, convertendo o texto escrito em atuações viscerais que permanecem fixadas na memória afetiva do público. Notícias detalhadas sobre a repercussão de sua carreira podem ser acompanhadas na cobertura do portal CNN Brasil.
Vida pessoal, parcerias e bastidores
Por trás das telas e dos palcos, Laura Cardoso construiu uma trajetória pessoal sólida. Em 1949, casou-se com o ator, roteirista, diretor e produtor de televisão Fernando Baleroni. O casal esteve junto ao longo de décadas e teve duas filhas, Fátima e Fernanda. A família da atriz expandiu-se com a chegada de netos e bisnetos.
Apesar de ser uma figura reservada, o ambiente familiar de Laura sempre foi marcado pela proximidade e pelo afeto dos parentes e amigos da classe artística. Diferente de enredos dramáticos sobre solidão na velhice, a atriz manteve-se acompanhada e cercada pelo carinho das pessoas mais próximas ao longo de toda a sua vida.
Reconhecimento consagrado, prêmios e atuação recente no cinema
A excelência do trabalho de Laura Cardoso ao longo das décadas resultou no recebimento das maiores honrarias das artes cênicas no Brasil. Entre os prêmios acumulados ao longo de sua trajetória profissional, destacam-se:
- O Troféu Mário Lago, concedido a artistas com contribuição extraordinária à cultura;
- Três estatuetas do Prêmio Grande Otelo, uma das premiações mais importantes do cinema nacional;
- A Ordem do Mérito Cultural, honraria entregue em 2006 pelo então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em reconhecimento ao seu legado para a cultura do país.
Mesmo afastada de grandes produções televisivas desde 2020, a veterana manteve-se em atividade artística. Aos 97 anos, em 2024, atuou como protagonista no curta-metragem Dona Rosinha, obra lançada em 2025 que aborda a temática sensível do abandono de idosos, baseada em uma história real.
Além de continuar atuando no cinema, a artista adaptou-se às novas tecnologias e formas de comunicação contemporâneas, mantendo uma postura ativa como influenciadora nas redes sociais. Em suas publicações digitais, interagia com o público transmitindo mensagens de otimismo e reflexões sobre a vida e a maturidade.
A arte de envelhecer e o legado para a cultura brasileira
Uma das frases publicadas por Laura Cardoso em suas redes sociais resume a filosofia com a qual conduziu os momentos finais de sua jornada: "Saber envelhecer é a arte de viver. Viva, sorria e aproveite." Prestes a completar 99 anos — seu aniversário ocorreria em setembro —, a atriz exemplificou como o exercício da arte e o amor pela profissão podem ser fontes contínuas de vitalidade.
A trajetória de Laurinda de Jesus Cardoso confunde-se com a própria evolução da dramaturgia e do entretenimento narrativo no Brasil. Desde os tempos pioneiros das transmissões de rádio no bairro do Bexiga até a era dos streamings e redes sociais, sua capacidade de dar alma a personagens fictícios ajudou a moldar a identidade cultural do país. Seu trabalho permanece vivo na memória das obras que deixou e serve de inspiração para novas gerações de atores, escritores e contadores de histórias.