A música baiana dos anos 1990 ficou marcada pela energia contagiante de artistas que levaram o axé para os quatro cantos do Brasil. Entre essas vozes, Ernesto de Souza Andrade Júnior, amplamente conhecido como Netinho da Bahia, destacou-se como um dos maiores fenômenos de público e de vendas da época.
Contudo, após dominar paradas de rádio, programas de televisão e multidões em trios elétricos, o cantor acabou se afastando dos holofotes. As razões para essa mudança envolvem problemas graves de saúde, reviravoltas na vida pessoal e posicionamentos que geraram fortes controvérsias públicas.
A ascensão fulgurante de uma das vozes marcantes do axé
A relação de Netinho com a música começou ainda na adolescência, quando ganhou seu primeiro violão aos 14 anos. Enquanto cursava Engenharia Civil em Salvador, o jovem conciliava a rotina universitária com apresentações em bares da capital baiana, onde aperfeiçoou seu estilo vocal e sua presença de palco.
A grande virada na carreira ocorreu em 1986, momento em que assumiu os vocais da Banda Beijo. Com o grupo, ajudou a estruturar o movimento da axé music, emplacando o sucesso "Beijo na Boca" e tornando-se o primeiro representante do gênero a se apresentar no programa Domingão do Faustão.
O alcance do artista ultrapassou as fronteiras nacionais. Na Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, um trio elétrico foi transportado de navio em uma viagem de dois meses para levar o ritmo baiano ao evento. Pouco tempo depois, em 1992, Netinho fez história novamente ao comandar o primeiro desfile de trio elétrico na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
O auge solo e a consagração nacional
Em 1993, o cantor deu início à sua carreira solo, atingindo o ponto mais alto de sua popularidade. O álbum Netinho ao Vivo imortalizou a canção "Milla", que se transformou em um verdadeiro hino festivo e rompeu barreiras por todo o país.
A presença do artista na televisão tornou-se constante, com participações frequentes nos programas comandados por Xuxa e Gugu Liberato. Netinho também apresentou atrações próprias, como o Som Aratu e o Sábado Show, exibido na antiga Rede Manchete.
Além de "Milla", o repertório do cantor emplacou diversas faixas em trilhas sonoras de novelas da TV Globo, como "Menina" (em Tropicaliente), "Pra Te Ter Aqui" (em História de Amor) e temas em Corpo Dourado. Hits como "Indecisão", "Para Sempre Eu Vou Te Amar" e a regravação de "Você É Linda", obra de Caetano Veloso, consolidaram sua posição no mercado fonográfico nacional. A história de sua carreira pode ser consultada com detalhes em acervos da Wikipédia.
Os problemas graves de saúde e as cirurgias
No ápice de sua visibilidade, a rotina intensa e a busca pela estética cobraram um preço alto. Em 2013, Netinho enfrentou uma séria crise médica ao ser internado em estado gravíssimo devido a problemas vasculares no fígado. Anos mais tarde, o próprio músico revelou que o problema foi desencadeado pelo uso de anabolizantes receitados sob a justificativa de reposição hormonal nos anos de 2009 e 2010.
O diagnóstico de lesões no fígado ocorreu de forma acidental durante o tratamento de um quadro de psoríase. Diante da gravidade e de uma infecção generalizada, ele foi transferido de emergência para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
O período de internação envolveu complicações neurológicas severas. O artista sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e precisou passar por três cirurgias na cabeça, além de perder a voz temporariamente. O processo de reabilitação afastou o cantor dos palcos por quase uma década, exigindo um longo trabalho de fisioterapia e fonoaudiologia.
Vida pessoal, transformações e polêmicas públicas
A trajetória pessoal do cantor também passou por diversas transformações ao longo dos anos. Entre 1997 e 2003, Netinho foi casado com a jornalista Mariana Trindade, relação da qual nasceu sua filha, Bruna, no ano de 2000. Em 2008, o músico declarou publicamente sua bissexualidade e, mais tarde, em 2017, adotou o estilo de vida vegano.
Com o passar do tempo, sua imagem pública associou-se a fortes controvérsias. Em declarações dadas a partir de 2020, o artista fez críticas abertas à comunidade LGBT e criticou a organização do Carnaval de Salvador, afirmando que a celebração havia perdido seus valores familiares originais.
Esses posicionamentos resultaram em embates judiciais. Um dos episódios envolveu o compositor Manno Góes, autor da música "Milla". O autor contestou o uso não autorizado da canção em manifestações políticas e criticou publicamente o cantor, gerando desentendimentos e processos por danos morais. Além disso, Netinho moveu ações judiciais contra profissionais de saúde envolvidos em prescrições do passado.
O caminho na política e o impacto profissional
A postura ideológica de Netinho intensificou-se com seu apoio declaradamente conservador ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Em 2022, o cantor filiou-se ao Partido Liberal (PL) na Bahia e candidatou-se ao cargo de deputado federal. No entanto, o resultado nas urnas não foi suficiente para elegê-lo.
A exposição política trouxe reflexos diretos em sua agenda profissional. O cancelamento de apresentações em clubes, eventos privados e prefeituras reduziu expressivamente seus compromissos artísticos, afetando também sua estabilidade financeira. Em sua declaração de bens prestada à Justiça Eleitoral em 2022, o artista informou um patrimônio de R$ 75 mil.
No mesmo período, o músico envolveu-se em controvérsias públicas adicionais após reagir a comentários de figuras públicas sobre suas posturas e aparições em eventos.
Como vive Netinho da Bahia atualmente
Atualmente, o cantor reside em Salvador, sua cidade natal, onde mantém uma rotina voltada aos cuidados com o bem-estar e à manutenção do estado de saúde. Em 2025, o músico enfrentou um novo desafio médico ao ser diagnosticado com um linfoma de células B, tipo de câncer que atinge o sistema linfático.
Por conta do diagnóstico, Netinho precisou cancelar suas apresentações agendadas para o período carnavalesco e submeteu-se a cerca de cinco meses de tratamento quimioterápico no Hospital Aliança, na capital baiana. Em meados do mesmo ano, comunicou aos fãs que os exames apontavam a remissão da doença.
Já no início de 2026, o artista segue em acompanhamento médico preventivo rigoroso. Ele dedica seus dias à recuperação da massa muscular, aos treinos de voz e a caminhadas diárias, mantendo o objetivo de retornar gradualmente às atividades musicais.
Uma trajetória de altos e baixos na cultura nacional
Revisitar a história de Netinho da Bahia permite compreender as transformações de um dos nomes mais populares da música brasileira dos anos 1990. Entre o auge das multidões nos trios elétricos, o sucesso de vendas e os desafios impostos por diagnósticos complexos, o cantor permanece como uma figura marcante da cultura pop do país.
Longe dos grandes holofotes que marcaram o início de sua carreira, o artista hoje busca a estabilidade física e a continuidade de sua caminhada diária, simbolizando as reviravoltas e a complexidade que acompanham a vida pública.