A trajetória de um grande artista muitas vezes se assemelha à estrutura das biografias e romances mais marcantes: uma infância de lutas, a conquista meteórica do sucesso e um momento crítico de profunda transformação pessoal. Quando as multidões cantam em coro nas arenas lotadas, raramente é possível mensurar a pressão que se acumula nos bastidores e o peso que a fama pode exercer sobre a mente humana.

A história de José Toscano Martins Neto, conhecido nacionalmente como Zé Neto, reflete exatamente esse contraste entre o topo do mercado fonográfico e a vulnerabilidade da saúde mental. Longe das câmeras, o cantor sertanejo viveu um drama silencioso que o levou a rever prioridades, buscar ajuda médica e dar um passo corajoso ao pausar a carreira no auge do sucesso.

Das raízes no interior paulista ao estrelato nacional

Nascido em 9 de fevereiro de 1990, na cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Zé Neto cresceu em uma rotina humilde. Filho de Eurides Toscano Martins e Vera Maria Toscano, ele trabalhou desde cedo no campo ao lado do pai. Conhecido na infância pelo apelido de "Zezinho do alemão", o jovem enfrentava dias difíceis no trabalho rural, coletando restos de alimentos em estabelecimentos da região para alimentar os animais da família.

Apesar das limitações financeiras, a música sertaneja sempre esteve presente em sua vida. Nomes como Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e a dupla João Paulo & Daniel ecoavam no rádio da cozinha e serviam como inspiração constante. Para aquele garoto do interior, os artistas do rádio provavam que era possível transformar a paixão musical em um futuro próspero.

Ainda na infância, ele conheceu seu parceiro de vida e de palco, Cristiano. Antes de consolidarem a famosa parceria, Zé Neto chegou a integrar uma primeira formação musical chamada Neto & Thiago, que durou pouco tempo. Foi somente em 2011 que os dois amigos de infância decidiram unir forças profissionalmente.

O início foi marcado por apresentações em pequenos bares e estruturas modestas. Em 2012, lançaram o álbum independente Entre Amigos. O grande salto nacional veio nos anos seguintes, com a gravação do DVD ao vivo em São José do Rio Preto. Faixas como "Seu Polícia", "Te Amo" e "Eu Ligo Pra Você" dominaram as paradas de sucesso das rádios brasileiras, projetando a dupla para os maiores festivais do país.

O peso da rotina e o impacto devastador do luto

Com a ascensão meteórica, veio também uma rotina frenética. A sequência ininterrupta de viagens, aviões, hotéis e apresentações começou a exigir um ritmo que gradualmente cobrou seu preço. Contudo, além do cansaço físico, um acontecimento trágico em novembro de 2021 impactou profundamente o emocional do cantor.

A trágica morte de Marília Mendonça, ocorrida em 5 de novembro de 2021 após um acidente aéreo em Caratinga (MG), abalou o país e atingiu Zé Neto de forma devastadora. A cantora não era apenas uma colega de gênero musical, mas uma referência pessoal e amiga próxima. O impacto da perda, somado à retomada intensa da agenda de shows no período pós-pandemia, desencadeou no artista um quadro sério de depressão e síndrome do pânico.

O colapso silencioso: voz, vícios e a crise de saúde

Para tentar cumprir os compromissos da carreira e anestesiar a dor emocional, Zé Neto acabou entrando em um ciclo perigoso. O uso constante de cigarro eletrônico começou a afetar diretamente a sua principal ferramenta de trabalho: a própria voz. Para suportar o cansaço e a ansiedade antes de subir ao palco, o cantor passou a recorrer ao consumo excessivo de álcool, combinado com medicamentos para dormir e acordar.

O resultado dessa sobrecarga foi o desgaste severo da saúde física e vocal. O artista chegava a realizar apresentações sem condições adequadas para cantar, enquanto tentava disfarçar a dor por trás da imagem pública de alegria. Em casa, a família — a esposa Natália e os dois filhos pequenos, José e Angelina — acompanhava com preocupação o distanciamento e o sofrimento do cantor.

Percebendo a gravidade do cenário, seu parceiro Cristiano decidiu intervir. Inicialmente, o músico proibiu o consumo de bebidas alcoólicas nos camarins, medida que gerou atritos momentâneos entre os dois. No entanto, diante da piora do quadro, Cristiano convocou uma reunião decisiva e deu um ultimato: a dupla só continuaria se Zé Neto buscasse tratamento e interrompesse o uso de álcool, visando proteger a vida do amigo acima de qualquer contrato.

A coragem de pausar: o tratamento e a reconstrução pessoal

Em 22 de agosto de 2024, a assessoria da dupla emitiu um comunicado oficial informando a suspensão da agenda de shows por 90 dias. A pausa visava permitir que Zé Neto se submetesse a um tratamento intensivo contra a depressão e a síndrome do pânico. Devido ao afastamento, os músicos cancelaram compromissos importantes da cena sertaneja, como a apresentação na tradicional Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos.

Durante o período de afastamento, o cantor esteve em São Paulo para realizar acompanhamento psicológico e médico rigoroso, com rotinas de terapia diárias que chegavam a quatro horas de duração. Em participação posterior ao programa Domingão com Huck, o artista falou abertamente sobre o momento difícil que viveu, explicando como a rotina automatizada e o uso de substâncias haviam prejudicado sua vida pessoal e profissional, destacando a importância da ajuda médica e da fé em seu processo de cura.

Um novo ritmo de vida e o legado da vulnerabilidade

O retorno oficial aos palcos ocorreu em 13 de dezembro de 2024, na cidade de Maçaranduba, em Santa Catarina. O show marcou uma nova fase da dupla, pautada pela sobriedade e pelo cuidado com a saúde mental. Para evitar novas crises de exaustão, a equipe reestruturou a agenda a partir de 2025, limitando o número de apresentações a no máximo 12 shows por mês.

A nova rotina permitiu que o cantor passasse mais tempo ao lado da esposa e dos filhos, estabelecendo limites claros entre o trabalho nos palcos e a vida pessoal. Além do impacto individual, a decisão de abordar o tema publicamente trouxe luz à importância do cuidado com a saúde emocional no meio artístico.

Uma história sobre limites e recomeços

A trajetória de Zé Neto ensina que o sucesso profissional e o reconhecimento financeiro não garantem imunidade às dores da mente. Reconhecer a própria fragilidade, aceitar ajuda de amigos e profissionais e saber a hora exata de fazer uma pausa não são sinais de fraqueza, mas sim atos de coragem e preservação da vida. Ao priorizar a saúde física e emocional, o artista não apenas salvou sua carreira, mas também deixou um exemplo valioso sobre a importância do autocuidado.

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