Muitas vezes, a realidade se encarrega de criar enredos mais surpreendentes do que qualquer romance de suspense financeiro. A história dos irmãos Wesley e Joesley Batista reúne todos os elementos de um verdadeiro thriller literário: ascensão meteórica, jogos de poder, espionagem industrial, prisões marcantes e uma reviravolta geopolítica impressionante.

Para os leitores que apreciam biografias profundas sobre figuras controversas e grandes impérios, a trajetória da família por trás da JBS oferece um panorama fascinante sobre os bastidores dos negócios e da política global.

O nascimento de um gigante no interior do Brasil

Tudo começou em 1953, quando José Batista Sobrinho abriu um modesto açougue em Anápolis, no interior de Goiás. Pouco tempo depois, atraído por incentivos fiscais e pela promessa de desenvolvimento proporcionada pela construção de Brasília, ele transferiu suas operações para a nova capital. Ali, passou a abastecer os canteiros de obras que erguiam a cidade.

O negócio prosperou e, em 1972, a empresa adotou o nome Friboi. Foi nesse ambiente de negócios que os irmãos Wesley e Joesley cresceram. Aprendendo o ofício ainda na adolescência, os dois tomavam decisões comerciais importantes logo cedo e, aos 17 anos, optaram por deixar os estudos formais para se dedicar exclusivamente à gestão dos abatedouros da família.

Nas décadas de 1990 e 2000, o ritmo de expansão acelerou drasticamente. Entre 1993 e 2005, a empresa adquiriu 12 unidades de processamento. Com o irmão mais velho migrando para a carreira política em 2005, Wesley e Joesley assumiram o comando definitivo da Friboi, que já registrava um faturamento anual próximo a 2 bilhões de dólares.

A estratégia de expansão global e a parceria estratégica

Com o apetite por crescimento renovado, os empresários entenderam que precisariam de crédito em larga escala para conquistar mercados externos. A oportunidade surgiu durante um período de forte crescimento econômico no Brasil, quando o BNDES implementou uma política de incentivo a empresas nacionais com potencial para se tornarem multinacionais.

A virada internacional ocorreu em 2005, com a compra da Swift Armor, maior exportadora de carnes da Argentina, por 200 milhões de dólares — um negócio financiado em parte por um empréstimo de 80 milhões de dólares do BNDES.

Dois anos depois, a Friboi abriu seu capital na bolsa de valores brasileira e passou a se chamar JBS. Com o aporte financeiro da estreia no mercado acionário, o grupo adquiriu a norte-americana Swift & Company por 1,4 bilhão de dólares. Para consolidar a operação, o BNDES comprou 500 milhões de dólares em ações da empresa.

Mesmo enfrentando barreiras sanitárias que impediam a exportação direta de carne bovina brasileira para os Estados Unidos, a JBS contornou a situação comprando marcas locais. Em 2011, o grupo já controlava mais de um quinto de todo o fornecimento de carne bovina no território norte-americano. Em 2014, o Estado brasileiro, por meio do BNDES, detinha quase 35% do controle acionário da companhia.

A tempestade perfeita: delação, gravações secretas e crise nacional

A trajetória de sucesso parecia inabalável até que os desdobramentos da Operação Lava Jato atingiram o auge. Assustados com as duras penas aplicadas a outros grandes empreiteiros do país, os irmãos Batista decidiram procurar as autoridades em 2016 para propor um acordo de colaboração premiada.

As revelações balançaram as estruturas do país. Os empresários confessaram o pagamento de aproximadamente 200 milhões de dólares em propinas distribuidos a quase 1.900 políticos para obter facilidades fiscais e empréstimos vantajosos. Segundo Joesley Batista, as irregularidades envolvendo o financiamento público começaram em 2005, mediante pagamentos milionários em dólares endereçados a altos executivos do governo.

O ponto mais dramático dessa fase ocorreu quando Joesley participou de uma conversa privada com o então presidente da República, Michel Temer, utilizando um gravador escondido sob suas roupas. O áudio indicava o aval presidencial para o pagamento pelo silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

A divulgação da fita provocou um pânico financeiro sem precedentes no país, forçando a Bolsa de Valores a interromper suas operações após uma queda histórica. Em troca da delação, os empresários negociaram a imposição de uma multa bilionária de 3,2 bilhões de dólares, dividida para pagamento ao longo de 25 anos.

O arquivo errado e o colapso temporário

Quando tudo parecia resolvido do ponto de vista jurídico, um equívoco digno de um enredo policial mudou o rumo dos acontecimentos. Um dos advogados encarregados de enviar materiais comprobatórios ao Ministério Público anexou acidentalmente um arquivo de áudio incorreto.

Na gravação equivocada, Joesley conversava com um executivo da JBS e admitia ter omitido informações cruciais das autoridades, além de planejar formas de influenciar membros da Procuradoria-Geral da República para obter vantagens nos termos da delação.

A anulação dos benefícios foi imediata. Paralelamente, os irmãos foram acusados de uso de informação privilegiada, pois haviam vendido cerca de 90 milhões de dólares em ações da empresa pouco antes da divulgação do áudio com o presidente, sabendo que a notícia derrubaria o valor dos papéis.

Pressionados pelas novas denúncias, Wesley e Joesley entregaram-se à polícia e cumpriram seis meses de prisão preventiva, seguidos por restrições de liberdade e o afastamento compulsório de qualquer cargo de direção na companhia.

A reconstrução do império e o impacto geopolítico

O afastamento dos fundadores não impediu a continuidade dos negócios. A partir de 2018, impulsionada pelo aumento vertiginoso da demanda chinesa por proteína animal, a JBS registrou lucros recordes e viu suas ações voltarem a subir expressivamente na bolsa.

Nos anos seguintes, os ventos jurídicos voltaram a soprar a favor da família. Em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários absolveu os irmãos das acusações de uso de informação privilegiada. Livre dos impedimentos legais, a dupla retornou oficialmente ao conselho de administração da JBS em 2024 — liderando um colosso global com 260 mil colaboradores e faturamento anual na casa dos 77 bilhões de dólares.

A etapa final dessa reconquista envolveu a entrada definitiva da empresa na Bolsa de Nova York, um objetivo antigo acelerado por mudanças no cenário político norte-americano em 2025. Uma subsidiária do grupo figurou como a maior doadora para o comitê de posse presidencial nos Estados Unidos, aportando 5 milhões de dólares, montante superior ao doado por gigantes da tecnologia.

A influência da família ultrapassou os limites do setor alimentício. Nos bastidores diplomáticos, Joesley participou de reuniões privadas com o chefe de Estado norte-americano, atuando no diálogo que culminou na remoção de tarifas de 50% impostas às importações brasileiras, além de mediar conversas de reaproximação entre governantes e realizar viagens de articulação na Venezuela.

Uma narrativa digna das grandes biografias

A história dos irmãos Batista permanece cercada de debates intensos sobre ética corporativa, limites das políticas públicas de incentivo e a complexa relação entre o grande capital e o poder estatal. Mesmo enfrentando controvérsias operacionais e questionamentos em diferentes frentes ao longo dos anos, a capacidade de reorganização do grupo impressiona analistas do mundo inteiro.

Para quem busca entender a dinâmica dos negócios contemporâneos e a geopolítica da América Latina, a saga da JBS serve como um prato cheio. É um relato real sobre como ambição, estratégia e resiliência se entrelaçam nos bastidores do poder global.