A literatura de true crime e as biografias investigativas há muito tempo atraem leitores fascinados por enigmas da vida real. Poucas histórias do mundo da música e da cultura pop, no entanto, carregam tanta complexidade e controvérsia quanto o assassinato do cantor e compositor Tupac Shakur, ocorrido em 1996.

Recentemente, os desdobramentos do julgamento de Duane Davis, mais conhecido como "Keefe D", trouxeram à tona novos depoimentos de testemunhas que vivenciaram a noite do crime, além de produtores e cineastas que documentaram o caso ao longo de décadas. O material apresentado no tribunal ajuda a reconstruir os momentos finais do artista e levanta questionamentos profundos sobre o motivo de a justiça ter demorado quase trinta anos para avançar.

A história por trás da última foto registrada em Las Vegas

Um dos depoimentos mais marcantes ouvidos pelo júri foi o de Leonard Jefferson, morador de Los Angeles que estava a passeio em Las Vegas na noite de 7 de setembro de 1996. Jefferson relatou que dirigia pela famosa avenida principal da cidade quando cruzou casualmente com o veículo onde estavam Tupac Shakur e o empresário Suge Knight.

Ao perguntar para onde estavam indo, Jefferson ouviu que o destino era uma casa de shows e recebeu o convite para seguir o comboio. Aproveitando o momento de aproximação no semáforo, ele tirou uma fotografia de Tupac. Essa imagem ficaria historicamente conhecida como a última foto do artista antes de ser baleado.

Logo em seguida, o trânsito se movimentou e Jefferson acabou ficando um pouco atrás, separado do carro principal pelos veículos da equipe de segurança. Pouco depois, enquanto falava ao telefone, ele ouviu barulhos de tiros e percebeu pessoas correndo em direção ao automóvel de Tupac. Jefferson afirmou não ter visto os atiradores nem a origem dos disparos devido à distância e à presença dos outros carros do grupo.

O depoimento revelou também uma sucessão de equívocos por parte das autoridades naquela noite. Após o ataque, a polícia interceptou o veículo de Jefferson sob a suspeita de que ele estivesse envolvido no crime. Ele foi retirado à força de seu carro, algemado e levado temporariamente para a delegacia. Somente após comprovar sua identidade e o motivo de sua viagem é que foi liberado. Minutos depois de retornar ao hotel, os próprios agentes o procuraram para admitir o erro e levá-lo de volta à cena do crime, onde recolheram o rolo de filme de sua câmera para revelar a histórica fotografia semanas mais tarde.

A monetização de uma tragédia nas telas e nas páginas

O tribunal também ouviu o cineasta Mario Diaz, diretor de produções de não ficção focadas na história da gravadora Death Row Records. Diaz explicou que realizou um extenso trabalho de pesquisa ao lado de consultores renomados, incluindo ex-detetives e documentaristas que dedicaram anos a mapear o crime organizado na costa oeste dos Estados Unidos.

Durante a produção de uma série sobre o tema, Diaz entrevistou Keefe D em duas ocasiões no ano de 2017, somando quatro horas de gravações. Pelas participações, o acusado recebeu pagamentos que variaram entre 10 e 20 mil dólares.

Nos vídeos exibidos aos jurados, Keefe D apresentava-se publicamente como uma liderança do tráfico de drogas local e orgulhava-se de ser o único sobrevivente capaz de contar os detalhes do ataque que tirou a vida de Tupac. Ele justificava suas aparições públicas dizendo que, após ser diagnosticado com um câncer no cólon em 2014, sentia que não tinha mais nada a perder e queria expor sua versão dos fatos.

O material evidencia como o suspeito transformou a tragédia em um produto comercial ao longo das décadas, concedendo entrevistas para livros, revistas e programas de entretenimento. Contudo, ao ser questionado diretamente sobre a identidade de quem havia puxado o gatilho, Keefe D recorria ao chamado "código das ruas", afirmando que manteria o segredo por respeito a regras não escritas entre as facções.

Confissões, contradições e os detalhes da noite do crime

Apesar das evasivas públicas, gravações de interrogatórios antigos entre Keefe D e investigadores revelam uma narrativa muito mais direta. Em conversas gravadas a partir de 2009, o acusado admitiu abertamente que seu próprio sobrinho, Orlando Anderson, fora o autor dos cinco ou seis disparos contra o veículo de Tupac.

Entre os detalhes relatados por Keefe D sobre a fuga, consta que o grupo chegou a disparar contra um carro de mulheres que tentava segui-los para assustá-las. Em seguida, pararam em um local isolado, onde Orlando Anderson teria lavado as próprias mãos de maneira improvisada na tentativa de eliminar resíduos de pólvora antes de continuarem a fuga.

Outro ponto crucial das investigações gira em torno da motivação do crime. Embora a narrativa oficial durante anos tenha focado em uma briga física ocorrida horas antes em um hotel de Las Vegas — onde Tupac agrediu Orlando Anderson —, as gravações mostram que o aspecto financeiro desempenhou um papel determinante.

Keefe D mencionou conversas prévias com figuras proeminentes da indústria fonográfica rival, citando negociações que envolveriam até 1,4 milhão de dólares pela eliminação de alvos da gravadora concorrente. Embora o acusado tenha mudado suas versões em depoimentos acompanhados por advogados ao longo dos anos, minimizando o planejamento prévio, a promotoria sustenta que o incentivo financeiro foi a peça-chave que escalou o conflito entre as gangues para um homicídio consumado.

Por que um caso que parecia resolvido demorou décadas?

O depoimento do documentarista Michael Dorsey, que dirigiu produções investigativas sobre as mortes de Tupac Shakur e Notorious B.I.G., trouxe à tona uma reflexão incômoda. Ao obter acesso aos arquivos oficiais das polícias de Los Angeles e Las Vegas para checar dados de livros sobre o tema, Dorsey concluiu que as autoridades já possuíam todas as provas e confissões necessárias há quase vinte anos.

A sensação transmitida ao júri é a de que o assassinato de um dos maiores nomes da história da música foi tratado como resolvido nos bastidores investigativos, mas ignorado pelo sistema judiciário por décadas. Falhas de condução, negligência com testemunhas e um histórico de atrito entre a comunidade hip-hop e os departamentos policiais da época contribuíram para que os envolvidos permanecessem em liberdade por quase três décadas.

O andamento do julgamento atual não busca apenas responsabilizar os executores do crime, mas também lançar luz sobre as falhas institucionais de um caso que marcou a história cultural recente e continua a inspirar obras jornalísticas, biográficas e policiais em todo o mundo.