O fascínio por histórias de true crime e produções baseadas em eventos reais não para de crescer no Brasil. Entre os episódios mais estarrecedores da crônica policial do país, a trajetória de Francisco de Assis Pereira, popularmente conhecido como o Maníaco do Parque, permanece como um dos casos mais marcantes e estudados por pesquisadores, jornalistas e leitores do gênero.

Em meados da década de 1990, o país parou para acompanhar a caçada e os desdobramentos dos crimes cometidos na capital paulista. Com o constante resgate dessa história no cinema, na literatura e em produções audiovisuais, vale a pena entender os fatos históricos, o perfil do agressor e os caminhos da investigação policial que desvendou o caso.

Infância humilde, traumas e os primeiros comportamentos alarmantes

Francisco de Assis Pereira nasceu em 30 de novembro de 1967, no município de Guaraci, interior de São Paulo. Filho do meio de uma família simples, teve uma infância marcada por frequentes mudanças de residência devido ao trabalho de seu pai, que atuava como pescador.

Durante a infância, Francisco frequentava um matadouro na companhia de seu avô. O contato constante com o abate de bovinos marcou sua formação, gerando uma perigosa banalização da morte e da violência. Ainda garoto, demonstrou comportamentos de crueldade contra animais, chegando a matar um pássaro e esconder seu corpo em casa.

Relatos sobre sua vida pessoal indicam também que ele sofreu abusos sexuais na infância por parte de uma parente e viveu episódios traumáticos em relacionamentos na juventude. Mais tarde, ao servir no Exército Brasileiro — onde atingiu o posto de cabo —, acumulou registros de mau comportamento. Em seus relacionamentos posteriores, como na convivência com uma companheira trans, demonstrou atitudes violentas de ordem física, verbal e psicológica.

O primeiro registro criminal relevante ocorreu em 1995, na cidade de São José do Rio Preto, quando uma jovem de 19 anos o denunciou por tentar levá-la à força para dentro de um prédio em construção. Na ocasião, contudo, Francisco acabou liberado por falta de provas e por não possuir antecedentes registrados.

O modus operandi no Parque do Estado e o perfil das vítimas

Em 1998, a Polícia Civil de São Paulo começou a investigar o desaparecimento de diversas mulheres na capital. O ponto em comum entre as ocorrências começou a ser desenhado após a localização de cadáveres na vegetação do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, uma área de Mata Atlântica conhecida como Parque do Estado.

O perfil escolhido pelo agressor era específico: mulheres jovens, com idades entre 18 e 24 anos, que aparentavam vulnerabilidade ou melancolia. A maior parte das abordagens ocorria nos arredores da estação Jabaquara do metrô.

Com boa persuasão e postura manipuladora, Francisco se apresentava como fotógrafo de uma empresa de cosméticos. Ele oferecia propostas irrecusáveis para ensaios fotográficos e adaptava seu discurso aos interesses de cada vítima. Após convencer a jovem a acompanhá-lo em sua motocicleta até o parque, o cenário mudava drasticamente.

Ao adentrar a mata, a violência escalava gradativamente de ofensas verbais para agressões físicas extremas e estrangulamento. Os corpos eram posteriormente abandonados em posições que remetiam à forma como os animais eram dispostos nos abatedouros de sua infância.

A investigação policial, o retrato falado e a captura

A elucidação do caso envolveu um trabalho detalhado das equipes de homicídios. Três mulheres que conseguiram escapar de investidas anteriores prestaram depoimentos cruciais para a elaboração de um retrato falado. Os relatos das sobreviventes coincidiam na descrição das feições do agressor e em detalhes sobre dores físicas severas que ele demonstrava sentir durante as investidas.

A divulgação do retrato falado nos meios de comunicação fez com que Francisco entrasse em pânico. Ele abandonou abruptamente o emprego como motoboy. Na oficina onde trabalhava, os investigadores encontraram um documento parcialmente queimado de uma das vítimas dentro de um vaso sanitário entupido, confirmando as suspeitas.

Outro elemento incomum que auxiliou na identificação foi a participação de Francisco em um documentário amador sobre praticantes de patinação — esporte que ele costumava praticar. A irmã de uma das vítimas reconheceu a voz do suspeito ao assistir ao vídeo, pois já havia conversado com ele por telefone anteriormente.

Após passar 23 dias foragido, Francisco foi localizado na cidade de Itaqui, no Rio Grande do Sul, em 4 de agosto de 1998. Reconhecido por moradores locais que viram sua imagem nos jornais, ele foi denunciado e detido pelas autoridades. Nos interrogatórios, demonstrou frieza, confessou a autoria de sete crimes e concordou em indicar à polícia os locais onde havia deixado os corpos.

O espetáculo midiático e o fenômeno da hibristofilia

A cobertura do caso pela imprensa atingiu níveis inéditos de audiência e repercussão. Os próprios veículos de comunicação cunharam o apelido "Maníaco do Parque", transformando a figura do criminoso em manchete diária em todo o país.

Além do impacto social, o caso trouxe à tona o fenômeno da hibristofilia — a atração por indivíduos que cometeram crimes graves. Somente no ano de sua prisão, Francisco recebeu mais de mil cartas de admiração e declarações amorosas. Em 2005, ele chegou a se casar na prisão com uma de suas admiradoras.

Entrevistas concedidas na época, como a conversa conduzida pelo jornalista Marcelo Rezende, mostraram o acusado atribuindo seus atos a supostas forças externas malignas, enquanto mantinha uma postura distante da gravidade de seus atos.

Condenação, penas e a discussão sobre a reinserção social

Levado a julgamento, Francisco de Assis Pereira foi condenado a penas que somam 268 anos de prisão. O processo confirmou o homicídio de seis mulheres — Patrícia Gonçalves Marinho, Celma Ferreira Queiroz, Raquel Mota Rodriguez, Isadora Frankel, Rosa Alves Neta e Elisângela Francisco da Silva —, além de outras agressões e tentativas. Investigadores especulam que o número total de vítimas possa ter sido ainda maior.

Apesar do limite máximo de cumprimento de pena privativa de liberdade previsto pela legislação brasileira, a possibilidade de sua eventual liberação gera grande debate. A própria mãe de Francisco declarou em entrevistas que não o receberia em casa, afirmando que o filho não está apto para o convívio em sociedade. Mantido isolado de outros detentos por razões de segurança, ele permanece cumprindo pena no sistema prisional.

Um capítulo marcante da crônica policial brasileira

A trajetória do Maníaco do Parque permanece como um dos capítulos mais sombrios e analisados da história do crime no Brasil. Relembrar a cronologia desses fatos permite compreender não apenas o trabalho de investigação e a dinâmica da cobertura midiática da época, mas também a importância de preservar a memória das vítimas e debater os limites da segurança pública e da psicopatia na sociedade.