Histórias reais de grandes mistérios criminais costumam mobilizar a opinião pública e gerar intensos debates mesmo anos após os julgamentos. Quase duas décadas depois da tragédia que chocou o país, o caso envolvendo a morte da pequena Isabela Nardoni voltou a ter desdobramentos surpreendentes com o surgimento de novas denúncias.
Uma declaração feita por uma servidora do sistema prisional e documentos enviados a órgãos internacionais trouxeram à tona alegações que questionam se a história foi inteiramente esclarecida na época. Entenda o que se sabe até agora sobre os fatos que marcaram o caso e as recentes movimentações que pedem a reabertura do processo.
Relembre a tragédia do edifício London em 2008
Na noite de 29 de março de 2008, um sábado na Zona Norte de São Paulo, a menina Isabela de Oliveira Nardoni, de apenas 5 anos, foi atirada da janela de um apartamento no sexto andar do edifício London. A garota era filha de Alexandre Alves Nardoni e de Ana Carolina Oliveira. Naquela ocasião, ela passava o fim de semana com o pai, a madrasta Ana Carolina Trota Peixoto Jatobá e os dois irmãos mais novos.
Após os vizinhos ouvirem discussões e o impacto da queda, o socorro foi acionado, mas a criança não resistiu aos ferimentos. De início, o pai alegou às autoridades que o imóvel havia sido invadido por um estranho enquanto ele descia para buscar os outros filhos no veículo da família. Para conferir mais detalhes cronológicos sobre o histórico da ocorrência, é possível consultar o acervo da página do caso na Wikipédia.
As provas técnicas e a condenação do casal
A narrativa de invasão por um terceiro desconhecido foi rapidamente contestada pelos exames periciais. A Polícia Técnico-Científica constatou que não havia indícios de arrombamento no apartamento. Além disso, a rede de proteção do quarto das crianças havia sido cortada intencionalmente, e a perícia identificou vestígios de sangue no imóvel, bem como sinais de tentativa de remoção das manchas.
O laudo do Instituto Médico Legal trouxe conclusões ainda mais determinantes: a vítima havia sido esganada antes de ser lançada pela janela. Diante dos elementos materiais reunidos, Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá foram presos preventivamente poucas semanas após o fato.
O julgamento ocorreu em março de 2010 no Fórum de Santana, em São Paulo. Após cinco dias de sessão no Tribunal do Júri, o juiz responsável leu a sentença que condenou ambos por homicídio triplamente qualificado e fraude processual:
- Alexandre Nardoni: condenado a mais de 31 anos de reclusão (pena posteriormente ajustada em grau de recurso).
- Ana Carolina Jatobá: condenada a 26 anos e 8 meses de reclusão.
A progressão das penas e o retorno às ruas
Cumprindo suas penas no Complexo Penitenciário de Tremembé, no interior paulista, os dois mantiveram conduta disciplinar adequada, participando de atividades de trabalho e estudo para remição de pena.
Esses fatores viabilizaram os pedidos de progressão de regime previstos pela legislação penal brasileira. Ana Carolina Jatobá obteve a progressão para o regime aberto, enquanto Alexandre Nardoni conquistou o mesmo benefício no ano seguinte. Atualmente, ambos cumprem o restante de suas sanções em liberdade, sob o cumprimento de medidas cautelares e obrigações de apresentação periódica à Justiça, sem manterem vida em conjunto.
A declaração em Tremembé que aponta para um novo suspeito
Apesar de o caso ter sido considerado encerrado pela Justiça com a condenação do casal, uma denúncia recente alterou o cenário. Uma policial penal que atuava na penitenciária de Tremembé relatou ter ouvido uma declaração comprometedora de Ana Carolina Jatobá durante o período em que ela esteve presa.
De acordo com o relato formalizado, a madrasta teria afirmado que não agiu de forma autônoma naquela noite. Ao ser questionada sobre quem teria orientado as ações, Jatobá teria indicado, por meio de gestos e confirmações chorando, o nome de seu sogro, Antônio Nardoni — pai de Alexandre e avô de Isabela.
A testemunha alega ainda que outros agentes penitenciários teriam presenciado falas semelhantes. A justificativa apresentada para o silêncio mantido ao longo de tantos anos seria o suporte financeiro prestado pelo sogro à família de Jatobá enquanto ela esteve reclusa.
É fundamental destacar que estas afirmações fazem parte de uma denúncia que necessita de apuração e validação jurídica. Antônio Nardoni nega veementemente qualquer participação no crime ou na alteração de provas, e a defesa da família informou que adotará medidas judiciais contra os relatos apresentados pelas testemunhas.
Ação internacional e os pedidos de reabertura do caso
Os novos desdobramentos não se limitaram às instâncias locais. Representantes legais acionaram a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), sediada em Washington, apresentando documentos e uma carta manuscrita sobre o tema.
A petição apresentada ao órgão internacional sustenta que o avô da menina deveria ter seu papel apurado, sugerindo a necessidade de verificações aprofundadas, como a análise de registros telefônicos da época. Entre os pedidos direcionados à comissão, estão o acompanhamento das apurações e a adoção de medidas de proteção às testemunhas envolvidas.
Paralelamente, o portal do Ministério Público de São Paulo e suas promotorias competentes analisam as solicitações de reabertura das investigações. Como o avô jamais foi denunciado ou julgado formalmente no processo original, os novos depoimentos abrem a possibilidade jurídica de uma investigação complementar.
Um capítulo inacabado na história policial brasileira
Mesmo após quase duas décadas da noite que chocou a sociedade, o caso Isabela Nardoni demonstra que investigações criminais de grande repercussão podem ganhar novos contornos com o surgimento de testemunhos inéditos. Enquanto a defesa dos citados refuta integralmente as acusações, cabe agora aos órgãos fiscalizadores e à Justiça avaliar se os novos indícios possuem consistência suficiente para instaurar uma nova etapa investigativa.