Narrativas sobre impostores e manipulação psicológica são extremamente populares na literatura de true crime e no gênero de suspense. No entanto, muitas vezes a realidade consegue criar enredos ainda mais surpreendentes e perturbadores do que as histórias das páginas de ficção.
Foi exatamente o que aconteceu no estado de Santa Catarina, onde a Polícia Civil prendeu uma mulher de 37 anos sob a acusação de estelionato. O motivo surpreendeu as autoridades e a opinião pública: ela se fingia de criança de 12 anos para ser acolhida e sustentada financeiramente por famílias locais.
Do romance policial à realidade: a aproximação e o enredo do golpe
A suspeita, identificada como Amanda Maria Souza de Oliveira, utilizava a falsa identidade de "Gabriele" para se aproximar de suas vítimas. O ponto de partida para a infiltração na vida das famílias era frequentemente o ambiente religioso. Com o apoio de lideranças comunitárias e religiosas locais, a mulher era apresentada como alguém em situação de extrema vulnerabilidade social.
Inicialmente, ela costumava contar que era uma jovem de 18 anos, com certa experiência de trabalho na área de panificação, buscando uma oportunidade para recomeçar a vida. Contudo, assim que conquistava a empatia e o apoio inicial, o enredo mudava drasticamente.
Amanda passava a alegar ter sérios problemas de saúde e dificuldades financeiras para comprar medicamentos. Ao perceber a comoção e o apego emocional das pessoas ao seu redor, ela alterava completamente a sua versão histórica: afirmava ser, na verdade, uma garota de apenas 11 anos de idade fugindo de abusos graves no ambiente familiar.
Sensibilizados com o relato de violência e desproteção infantil, os moradores decidiam acolhê-la em definitivo, integrando-a ao lar como uma verdadeira filha.
A construção do comportamento infantil e as justificativas elaboradas
Para manter a farsa ao longo dos meses, Amanda adotava comportamentos extremamente infantilizados no dia a dia. Ela fazia uso constante de chupetas, mamadeiras e mantinha apego a objetos de transição, como cobertores infantis.
Diante do contraste inevitável entre sua fisionomia adulta e a idade que alegava ter, a investigada usava justificativas muito bem elaboradas. Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Civil de Santa Catarina, ela dizia ser uma pessoa no espectro autista e possuir outras condições de saúde complexas. Além disso, afirmava que seu crescimento físico alterado era resultado de ter sido forçada a ingerir hormônios durante a infância.
A manipulação se estendia para o controle do ambiente. Sempre que a família manifestava a intenção de formalizar a adoção ou matriculá-la em uma escola — passos naturais para a proteção de uma menor de idade —, Amanda inventava barreiras. Ela dizia que o registro formal revelaria seu paradeiro ao suposto pai agressor, o que colocaria a vida de todos em risco. A ida à escola também era evitada sob o pretexto de afastar suspeitas ou contatos externos.
Durante cerca de 14 meses, a mulher viveu sob os cuidados de uma família de boa condição financeira em Santa Catarina. Ela ganhou um quarto totalmente decorado com brinquedos, comemorou aniversário de 12 anos com festa temática e recebia todos os mimos destinados a uma criança, embora também chegasse a solicitar medicamentos controlados e de alto custo.
A derrocada da farsa e as investigações pelo país
A elaborada trama começou a ruir quando uma familiar distante das vítimas começou a estranhar os relatos e a conduta da suposta criança. Decidida a apurar os fatos, ela realizou buscas por conta própria na internet e descobriu que o nome verdadeiro da jovem era Amanda, e não Gabriele.
A pesquisa revelou que Amanda já havia sido presa no estado do Rio de Janeiro, no município de Nova Iguaçu, no ano de 2023. Na época, ela havia aplicado um golpe semelhante: alegava ser vítima de uma rede de bruxaria e solicitava apoio financeiro de pessoas sensibilizadas com sua suposta perseguição.
Após a descoberta, a denúncia foi encaminhada às autoridades policiais catarinenses, culminando na prisão em flagrante da suspeita. Em depoimento, ela acabou confessando a farsa.
As apurações subsequentes revelaram que Amanda é natural do Ceará e possui um longo histórico de ocorrências parecidas registradas em diversos estados brasileiros, incluindo:
- São Paulo
- Rio de Janeiro
- Minas Gerais
- Rio Grande do Sul
- Goiás
- Santa Catarina
Em Belo Horizonte, por exemplo, uma assistente social relatou ter sido vítima de um golpe similar. O padrão só foi quebrado quando a profissional presenciou episódios de violência física praticados por Amanda no momento em que foi sugerido seu encaminhamento para um abrigo institucional — local onde seus documentos reais seriam exigidos.
Situação jurídica e divergências de dados
Após ser detida, Amanda passou por audiência de custódia e teve a prisão preventiva decretada pela Justiça, sendo encaminhada ao Presídio Regional de Joinville. A manutenção da prisão fundamentou-se no risco de reincidência e na necessidade de garantir a ordem pública durante o andamento das investigações.
A polícia agora apura a extensão dos ganhos financeiros obtidos por meio de transferências via Pix. Diversas pessoas e famílias que acreditavam estar ajudando uma criança doente ou uma vítima de abusos enviavam recursos financeiros frequentemente, muitas vezes direcionados a contas de terceiros envolvidos no esquema.
Outro ponto que intriga os investigadores é a idade real da estelionatária. Quando foi detida no Rio de Janeiro em 2023, os registros indicavam que ela tinha 42 anos. Já os documentos colhidos pelas autoridades em Santa Catarina apontam que ela teria 37 anos. Essas divergências em registros civis são comuns em casos de falsidade ideológica e continuam sob análise pericial.
A história de Amanda Maria Souza demonstra como redes de manipulação psicológica e criação de falsas narrativas conseguem explorar a boa-fé e a empatia humana. Para os leitores de romances policiais e histórias de mistério, o caso serve como um impressionante e trágico lembrete de que as tramas mais intrincadas da ficção encontram, por vezes, reflexos exatos no mundo real.