Poucos casos reais de crimes não solucionados exerceram tanto fascínio sobre a literatura de true crime, o cinema e o imaginário popular quanto o do assassino do Zodíaco. Entre o fim dos anos 1960 e o início da década de 1970, um criminoso sem rosto espalhou o pavor pela Califórnia, desafiando a polícia com enigmas cifrados e cartas provocativas enviadas aos principais jornais da região.
Apesar de uma das investigações mais profundas da história dos Estados Unidos, o autor dos crimes nunca foi formalmente responsabilizado. O enredo, repleto de mensagens codificadas, teorias conspiratórias e reviravoltas dignas de um romance policial, continua a atrair a atenção de leitores e entusiastas de mistérios até os dias atuais.
Os primeiros ataques e a marca da crueldade
O rastro de terror atribuído oficialmente ao Zodíaco teve início em 20 de dezembro de 1968. Os jovens David Faraday, de 17 anos, e Betty Lou Jensen, de 16, passeavam à noite pela área isolada de Lake Herman Road — um ponto frequentado por casais. Surpreendidos dentro do veículo por um desconhecido que estacionou logo atrás, eles tentaram escapar, mas não tiveram chance. David foi morto no interior do carro, enquanto Betty Lou acabou alvejada durante a tentativa de fuga. Inicialmente, a polícia tratou o ocorrido como um homicídio isolado, chegando a investigar conhecidos das vítimas.
A certeza de que a região enfrentava um assassino em série veio no ano seguinte. Em 4 de julho de 1969, outro jovem casal — Michael Mageau, de 19 anos, e Darlene Ferrin, de 22 — foi atacado dentro de um automóvel a poucos quilômetros do local do primeiro crime. O atirador os seguiu e disparou repetidas vezes. Darlene não resistiu aos ferimentos, mas Michael sobreviveu milagrosamente, tornando-se a primeira testemunha a fornecer uma descrição do agressor.
Naquela mesma noite, o próprio criminoso fez uma ligação para a delegacia local informando os detalhes exatos do duplo homicídio, citando a arma utilizada (uma pistola Luger 9 milímetros) e reivindicando também a autoria da execução do casal ocorrida no Natal do ano anterior.
Cartas, criptogramas e o deboche contra as autoridades
Em 1º de agosto de 1969, o caso tomou uma dimensão inédita quando três grandes jornais da Califórnia receberam cartas idênticas escritas à mão. O remetente revelava detalhes minuciosos das cenas dos crimes que apenas o autor e a polícia poderiam conhecer, como a marca das munições, a posição exata dos corpos e a vestimenta das vítimas.
Junto aos textos, foram enviadas três partes de uma mensagem codificada. O autor exigia que o criptograma fosse publicado na primeira página dos jornais, sob a ameaça de iniciar uma onda de assassinatos aleatórios durante o final de semana. Após consulta com as autoridades policiais, os jornais decidiram veicular os símbolos.
Poucos dias depois, um casal de leitores conseguiu decifrar a primeira mensagem. O conteúdo revelava uma personalidade perturbadora: o autor afirmava que gostava de matar pessoas porque era "mais divertido do que caçar animais na floresta" e que as vítimas se tornariam suas "escravas no paraíso" após a morte. Ele também explicou que não revelaria sua verdadeira identidade no código para evitar que tentassem pará-lo.
Mais tarde, outra carta com um grau de complexidade ainda maior foi enviada às autoridades. O enigma era tão elaborado que pesquisadores e matemáticos levaram mais de cinco décadas para decodificá-lo totalmente. A solução só veio à tona em 2020, revelando que o autor havia empregado técnicas avançadas de criptografia militar. Essa descoberta alimentou teorias de que o criminoso possuía treinamento técnico ou atuava dentro das próprias forças de segurança pública, conforme registros mantidos no arquivo de documentos históricos sobre o Assassino do Zodíaco.
Mudança no padrão de ataque e a fuga espetacular
Com o passar dos meses, o criminoso passou a alterar seu modo de atuação. Em 27 de setembro de 1969, no Lago Berryessa, ele abordou um casal que fazia um piquenique vestindo um capuz preto com o símbolo de um círculo cortado por uma cruz — marca que passou a adotá-lo como sua assinatura visual.
Desta vez, utilizou uma faca de 25 centímetros para esfaquear as vítimas repetidamente após amarrá-las com cordas de nylon. A mulher faleceu, mas o homem sobreviveu para descrever o traje do agressor. Antes de fugir, o assassino desenhou seu símbolo e escreveu as datas dos ataques anteriores na porta do carro das vítimas.
Pouco tempo depois, em 11 de outubro de 1969, o Zodíaco cometeu um ato completamente fora do padrão ao assassinar o taxista Paul Stine em São Francisco. Para provar a autoria à imprensa, enviou posteriormente uma carta contendo um pedaço ensanguentado da camisa da vítima.
Em março de 1970, o criminoso esteve envolvido no sequestro de Kathleen Johns, que trafegava de carro com sua filha de apenas dez meses. O homem sabotou a roda do veículo da vítima simulando ajuda e se ofereceu para levá-la a um posto de combustível. Percebendo o desvio em direção a estradas desertas, Kathleen saltou do carro em movimento carregando o bebê e se escondeu em um milharal até ser resgatada. Ao chegar à delegacia, ela reconheceu o retrato falado do atirador que aterrorizava a região.
A sombra das 37 vítimas e as cartas finais
O fluxo de correspondências enviadas pelo assassino estendeu-se até 1974. Nelas, além de fazer críticas de cinema e debochar abertamente da ineficiência da polícia, o criminoso sugeriu ter feito 37 vítimas ao todo. Oficialmente, a investigação atribui a ele cinco execuções confirmadas e duas tentativas de homicídio com sobreviventes, embora dezenas de outros casos não solucionados na Califórnia continuem sob suspeita de conexão.
A repercussão do caso deu origem a inúmeras obras de investigação, incluindo best-sellers de true crime que tentaram montar o quebra-cabeça de sua identidade.
Quem era o Zodíaco? Os principais suspeitos
Mais de 2 500 pessoas foram formalmente investigadas ao longo de décadas. Dois nomes, no entanto, destacaram-se nas linhas de apuração:
Arthur Leigh Allen
Considerado por anos o suspeito mais forte, Allen foi investigado após frequentar locais próximos às cenas dos crimes e manifestar a amigos o desejo de matar pessoas usando o pseudônimo "Zodíaco". Ele usava um relógio da marca Zodiac cujo logotipo trazia a mesma cruz sob o círculo desenhada nas cartas, possuía armas compatíveis e foi reconhecido por um dos sobreviventes. Contudo, discrepâncias em álibis, exames grafotécnicos e amostras de DNA colhidas na época impediram sua acusação formal até sua morte, em 1992.
Richard Hoffman
Policial na cidade de Vallejo à época dos fatos, Hoffman passou a ser apontado publicamente por familiares em 2024 como o provável criminoso. Ele foi o primeiro agente a chegar à cena do crime de Darlene Ferrin — mulher que, segundo relatos, havia se queixado de perseguições promovidas por ele. Além disso, Hoffman atuou como consultor técnico em produções sobre o caso devido ao seu conhecimento profundo de cada detalhe das investigações e cometia um erro ortográfico recorrente nas palavras escritas à mão idêntico ao encontrado nas cartas originais do Zodíaco.
Um mistério sem fim na cultura pop
A ausência de um desfecho definitivo transformou a figura do assassino do Zodíaco em um enigma permanente. Sem que um culpado jamais tenha sido levado ao tribunal, o caso permanece aberto na polícia da Califórnia, servindo como uma fonte inesgotável de inspiração para escritores, roteiristas e leitores apaixonados por grandes mistérios reais.