A história da rede Casas Bahia se confunde com a própria evolução do consumo popular no Brasil ao longo do último século. No entanto, após décadas dominando os comerciais de televisão e a rotina de milhões de famílias, a gigante do varejo enfrenta a fase mais dramática de sua existência ao entrar com um pedido de recuperação judicial.
Com dívidas bilionárias, fechamento de centenas de lojas e milhares de demissões, o grupo vive uma crise profunda que surpreende quem acompanhou seu período de ouro. Entender como uma empresa que movimentava bilhões de reais por ano chegou a esse ponto exige olhar para o passado, analisando desde sua criação humilde até os erros estratégicos e polêmicas de bastidores.
Da Polônia ao império do crediário no Brasil
A trajetória da empresa começou muito longe do território brasileiro. O fundador Samuel Klein nasceu na Polônia, em 1923, e enfrentou os horrores da Segunda Guerra Mundial em campos de concentração nazistas, onde perdeu grande parte de sua família. Após sobreviver ao conflito, emigrou para a América do Sul e desembarcou no Brasil em 1952, estabelecendo-se em São Caetano do Sul, na região do ABC Paulista.
Com o dinheiro que possuía, Klein comprou uma charrete e uma carteira de clientes para vender artigos de cama, mesa e banho de porta em porta. A cidade abrigava diversas indústrias e atraía milhares de migrantes, especialmente da Região Nordeste, que chegavam para trabalhar nas fábricas locais. O comerciante percebeu rapidamente que o maior obstáculo daquela população não era a falta de interesse nos produtos, mas sim a ausência de crédito bancário tradicional.
Em 1957, o empreendedor deu um passo decisivo ao adquirir uma pequena loja no centro da cidade chamada "Casa Bahia", nome dado pelo antigo dono em homenagem aos clientes nordestinos. Samuel manteve a denominação, acrescentou o plural e deu início à consolidação de uma das marcas mais populares da história do comércio no Brasil.
O modelo de negócios: um banco disfarçado de loja
O verdadeiro diferencial que impulsionou o crescimento da rede nos anos seguintes esteve centrado no crediário. A empresa captava recursos financeiros a taxas de juros baixas no mercado e oferecia parcelamentos aos consumidores por meio do famoso carnê, cobrando taxas de juros mais elevadas sobre os pagamentos a prazo. Na prática, a venda de eletrodomésticos e móveis funcionava como uma operação financeira altamente rentável.
Durante a década de 1970, o grupo fortaleceu essa estrutura ao adquirir a financeira Intervest, garantindo controle sobre a concessão de crédito aos clientes. Paralelamente, a rede expandiu a oferta de produtos e assumiu o controle da fábrica de móveis Bartira, criada no início dos anos 1960 para abastecer suas próprias unidades.
Com a estabilização econômica trazida pelo Plano Real na década de 1990, o poder de compra da população de menor renda aumentou significativamente. A empresa aproveitou o momento para inaugurar grandes centros de distribuição e abrir centenas de unidades pelo país, consolidando-se como uma das maiores varejistas do mundo.
Publicidade marcante, expansão e controvérsias
Nos anos 2000, a marca tornou-se a maior anunciante da televisão brasileira. Personagens infantis, slogans marcantes e garotos-propaganda conhecidos popularizaram a oferta de produtos parcelados. Campanhas publicitárias agressivas desafiavam o público a propor preços, gerando grande engajamento, mas também episódios inusitados nas lojas físicas e processos trabalhistas promovidos por funcionários.
Nesse período de expansão acelerada, o grupo lançou grandes eventos de vendas em feiras de negócios, que atraíam milhões de consumidores e movimentavam somas expressivas em poucos dias. O faturamento anual ultrapassava a casa dos bilhões de reais, impulsionado por uma base de dados que contava com dezenas de milhões de clientes cadastrados no crediário.
Fusões, fraudes contábeis e escândalos familiares
Por trás dos números expressivos de vendas, os bastidores da empresa começaram a registrar divergências familiares. Em 2009, desentendimentos entre os herdeiros do fundador culminaram na venda de participações societárias e na fusão das operações com o grupo Pão de Açúcar, dando origem à empresa que mais tarde seria chamada de Via Varejo.
Após a morte de Samuel Klein, em 2014, o cenário corporativo tornou-se ainda mais conturbado. Nos anos seguintes, mudanças no controle acionário trouxeram à tona auditorias internas que identificaram fraudes contábeis bilionárias relativas a exercícios anteriores, exigindo pesados reajustes nos balanços da companhia.
Além dos problemas financeiros, a imagem da família fundadora sofreu duros golpes a partir de reportagens investigativas e investigações judiciais que revelaram graves denúncias de crimes sexuais e exploração envolvendo membros da gestão familiar, resultando em condenações na Justiça do Trabalho e processos criminais.
E-commerce atrasado, juros altos e o pedido de socorro
A deterioração dos negócios da rede não ocorreu por um único fator, mas sim pela combinação de falhas estratégicas e um cenário econômico adverso:
- Atraso na transição digital: enquanto concorrentes nacionais e plataformas internacionais de comércio eletrônico ganhavam espaço com estruturas operacionais mais enxutas, a empresa demorou a consolidar suas vendas online, mantendo custos elevados com o aluguel e a manutenção de centenas de lojas físicas.
- Alta das taxas de juros: o aumento contínuo da taxa básica de juros encareceu a captação de recursos para a empresa e reduziu o poder de compra dos consumidores endividados, afetando diretamente a venda de itens de maior valor parcelados no carnê.
- Mudança no comportamento do consumidor: o endividamento das famílias brasileiras e a concorrência por orçamento doméstico reduziram a busca pela troca frequente de eletrodomésticos e móveis.
Em virtude desses fatores, a empresa iniciou um plano de reestruturação que incluiu a demissão de milhares de colaboradores, o encerramento das atividades de fábricas próprias e o fechamento de centenas de pontos de venda. Com prejuízos acumulados, patrimônio líquido negativo e incertezas apontadas por auditorias independentes, a companhia recorreu à Justiça para solicitar a recuperação judicial, buscando renegociar bilhões de reais em dívidas com milhares de credores.
O futuro de uma das maiores marcas do país
O pedido de recuperação judicial não representa o encerramento definitivo das atividades, mas sim uma medida legal de proteção para que a empresa tente reorganizar suas finanças enquanto mantém os pontos de venda restantes em operação.
Com dezenas de milhares de empregos diretos dependendo de sua continuidade, o grupo enfrenta agora o desafio de provar a viabilidade do seu modelo de negócios em um mercado cada vez mais focado na eficiência digital e no controle rigoroso de custos.