A relação entre o conhecimento literário e a capacidade de persuasão costuma surgir nos lugares mais inesperados, incluindo o universo do crime organizado. A história de Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido popularmente como Marcola, chama a atenção não apenas pelos crimes cometidos, mas por como o hábito da leitura acabou moldando sua postura estratégica dentro do sistema prisional brasileiro.
Mesmo tendo abandonado a escola ainda na infância, o homem que se tornaria uma das figuras mais conhecidas das penitenciárias de segurança máxima do país sempre destacou a importância dos livros em sua formação pessoal. Ao longo das décadas atrás das grades, a literatura de estratégia e política serviu como base para a sua atuação e liderança.
A infância vulnerável e os primeiros passos nas ruas de São Paulo
Nascido em 1968 no bairro Vila Yolanda, na periferia de Osasco, Marcola enfrentou tragédias familiares desde muito jovem. Sua mãe faleceu afogada quando ele tinha apenas 9 anos de idade, e seu pai, de origem boliviana, foi uma figura ausente em sua criação. Sem o amparo dos pais e contando apenas com o auxílio pontual de uma tia, o menino acabou empurrado para a vida nas ruas no centro da capital paulista, mais especificamente na região da Sé.
Foi na Baixada do Glicério que ele começou a cometer pequenos furtos de carteiras para sobreviver. Nessa mesma época surgiu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida, decorrente do uso frequente de cola de sapateiro por jovens da região para inibir a fome. Sem concluir os estudos formais, ele deixou a escola no 5º ano do ensino fundamental.
Aos 14 anos, o jovem colecionava passagens pela antiga Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Feben). Esse ambiente funcionou como uma espécie de aprendizado prático sobre a criminalidade. Foi na instituição que ele conheceu outros adolescentes em situação semelhante, como César Roris da Silva, o Cezinha, com quem estabeleceu laços que se desdobrariam anos mais tarde no sistema penitenciário adulto.
O autodidatismo na prisão: Maquiavel e Sun Tzu no Carandiru
Ao atingir a maioridade penal, a trajetória de pequenos delitos deu lugar a crimes de maior gravidade. Em 1987, ocorreu sua primeira condenação por roubo a banco, resultando em sua transferência para a Casa de Detenção de São Paulo, o emblemático Carandiru. No presídio adulto, a convivência era ditada pela lei do mais forte, em um período anterior ao domínio de grandes organizações centralizadas.
Para se destacar em meio às rivalidades internas, Marcola não utilizou apenas a força física, mas buscou desenvolver uma capacidade de articulação política. Embora tivesse interrompido os estudos precocemente, dedicou-se à leitura intensiva na prisão, afirmando posteriormente ter lido mais de 3 mil livros ao longo dos anos. Entre as obras estudadas estavam clássicos de análise política e militar, como os escritos de Nicolau Maquiavel e o célebre tratado A Arte da Guerra, atribuído ao estrategista chinês Sun Tzu.
Essa bagagem literária conferiu a ele um perfil diferenciado em relação a outros detentos. Em 1990, casou-se com a advogada Ana Maria Olivato. O relacionamento conjugal chegou ao fim anos depois, mas ambos mantiveram um vínculo de amizade e colaboração.
Após os eventos trágicos do Massacre do Carandiru em 1992, diversos detentos foram transferidos para a Casa de Custódia de Taubaté. Foi nesse local que, em 1993, surgiu o Comando Vermelho paulista, facção à qual Marcola se integrou logo nos primeiros momentos, dividindo cela com lideranças como Idemir Ambrósio, o Sombra. Utilizando sua oratória e visão de organização, ele ajudou a difundir as ideias do grupo em diferentes unidades prisionais para as quais foi transferido.
A ascensão na facção e a divergência de métodos
Em 1997, Marcola conseguiu fugir do sistema prisional. No ano seguinte, ao lado de seu irmão, participou de um grande assalto contra a empresa de transporte de valores Transpev, resultando no roubo de R$ 15 milhões. A ação envolveu o sequestro do coordenador e do encarregado de segurança da empresa, além de seus familiares, para forçar a entrega dos malotes. Com o dinheiro obtido, morou temporariamente no Paraguai, onde conheceu rotas de comércio ilegal, mas acabou preso novamente ao retornar ao Brasil para visitar a família.
De volta à prisão, participou ativamente da mega rebelião de 2001, que atingiu simultaneamente 29 presídios paulistas para demonstrar a força e a existência da organização. O episódio levou à sua transferência para unidades fora de São Paulo, como no Rio Grande do Sul e em Brasília.
No ano de 2002, uma cisão interna mudou os rumos da organização. Enquanto lideranças como Cezinha e Geleião defendiam táticas de confronto direto e ataques violentos contra o Estado — incluindo o plano de explodir um carro-bomba na sede da Bovespa —, Marcola argumentava que tais ações atrairiam uma reação desproporcional do poder público. Ele defendia uma atuação discreta e voltada ao ganho financeiro sem alarde.
O conflito interno escalou até a execução de Ana Maria Olivato, ex-esposa de Marcola, a mando de Cezinha e Geleião, sob a suspeita não comprovada de repasse de informações às autoridades. A morte de Ana gerou revolta generalizada, resultando na expulsão dos antigos fundadores e na ascensão definitiva de Marcola ao topo da hierarquia do grupo.
Reformulação estrutural e os episódios de 2006
Assumindo o controle principal, Marcola reestruturou o funcionamento da organização. Inspirado por modelos de gestão centralizada, estabeleceu uma estrutura em formato de pirâmide, instituiu regras severas contra abusos em comunidades periféricas e criou o chamado tribunal do crime para julgar disputas internas.
A tensão entre o grupo e o Estado atingiu o ápice em maio de 2006. Após o vazamento de informações sobre o isolamento de centenas de lideranças no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), decorrente de investidas policiais e investigações sobre extorsões contra a família de Marcola, foi emitida uma ordem de ataques generalizados. O confronto durou cinco dias, deixando um saldo de 59 agentes públicos e 505 civis mortos, além de dezenas de ônibus queimados e rebeliões em 74 unidades prisionais.
O cessar-fogo ocorreu de forma repentina, levantando discussões sobre eventuais negociações entre emissários governamentais e o líder na prisão. Um mês após os ataques, ao depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Armas, Marcola chamou a atenção dos parlamentares e da imprensa por sua articulação verbal, citando suas leituras e negando formalmente o posto de comando da facção.
Nos anos seguintes, com a entrada de novos integrantes como Rogério Simone (GG do Mangue), a estrutura expandiu sua atuação para o tráfego internacional de substâncias ilícitas através da chamada sintonia do progresso.
Planos de resgate, áudios reveladores e o racha interno
Devido à sua influência, o governo promoveu sucessivas transferências de Marcola entre penitenciárias de segurança máxima. Para tentar resgatá-lo, a facção planejou diversas operações complexas:
- 2014: Treinamento de pilotos para uso de aeronaves em Presidente Venceslau, descoberto antes da execução.
- 2018: Investimento estimado em R$ 100 milhões para contratação de mercenários estrangeiros e aquisição de armamento pesado.
- 2022: Plano orçado em R$ 60 milhões envolvendo a tentativa de sequestro de figuras públicas em Rondônia.
O fracasso constante dessas tentativas de resgate gerou insatisfação entre outros integrantes devido ao alto custo financeiro envolvido. Em 2022, uma gravação secreta feita durante uma conversa com seu advogado — e divulgada anos depois — registrou o próprio Marcola admitindo que assumiu o comando do grupo motivado pelo assassinato de sua ex-esposa.
Mais recentemente, a cúpula da organização enfrentou novas divisões internas. Divergências sobre declarações gravadas de Marcola a respeito de outros integrantes, como Roberto Soriano (Tiriça), levaram questionamentos por parte de nomes como Abel Pacheco (Vida Louca), culminando na expulsão dos opositores da estrutura dominada por Marcola.
A permanência no sistema prisional e o reflexo nos livros
Preso ininterruptamente desde 1999, Marcos Willians Herbas Camacho acumula penas que somam mais de 300 anos de condenação, tendo passado por 19 estabelecimentos penais ao longo de sua vida.
Sua trajetória mostra como a leitura e a capacidade de interpretação de textos complexos podem ser aplicadas nos cenários mais diversos. Embora utilizada no contexto da criminalidade e do isolamento penitenciário, a história do detento autodidata permanece como um estudo de caso impressionante sobre o poder da articulação intelectual e da estratégia na construção de poder.