Narrativas sobre grandes imperadores do crime e guerras de gangues sempre exerceram um fascínio avassalador sobre a literatura de true crime e os romances policiais. Poucas figuras da história real sintetizam tão bem esse universo quanto Alphonse Capone, o infame mafioso que dominou as ruas de Chicago na década de 1920 e se tornou o arquétipo definitivo do "poderoso chefão".
Por trás do mito e dos estereótipos eternizados por livros e filmes, existe a biografia brutal de um homem inteligente e carismático que transformou pequenas quadrilhas de rua em um império milionário — antes de ver sua vida desmoronar de forma melancólica.
Do Brooklyn a Nova York: a juventude e a cicatriz histórica
Nascido em 1899 no bairro do Brooklyn, em Nova York, Alphonse Capone era o quarto de nove filhos de uma família de imigrantes italianos vindos das proximidades de Nápoles. Seu pai exercia a profissão de barbeiro e sua mãe trabalhava como costureira. Apesar da rotina humilde e financeira apertada, o jovem Al demonstrava inteligência acima da média na escola. No entanto, sua personalidade impulsiva e explosiva acabou falando mais alto: aos 14 anos, após se desentender e agredir um professor, ele foi expulso do colégio e nunca mais retornou aos estudos.
Após deixar a escola, Capone passou por diversos empregos formais, trabalhando em fábricas de equipamentos militares, pistas de boliche e até mesmo em uma editora de livros. Contudo, o convívio nas ruas do Brooklyn o levou rapidamente para o mundo dos pequenos furtos e esquemas ilegais, resultando em sua entrada para a célebre Five Points Gang.
Foi sob a tutela de Johnny Torrio, líder da gangue e seu grande mentor, que Capone começou a atuar como segurança em casas noturnas e bares clandestinos. Foi justamente nessa época, durante uma briga no bar Harvard Inn, que ele recebeu três cortes no rosto com uma navalha após fazer um comentário ofensivo à irmã de um Frequentador. O episódio lhe rendeu o apelido que ele odiaria pelo resto da vida: Scarface (Cara de Cicatriz).
Em 1918, Capone se casou com Mae, uma mulher firme e discreta que se tornaria sua companheira por toda a vida e a única capaz de conter seus impulsos violentos em momentos decisivos. No ano seguinte nasceu o único filho do casal, Albert "Sonny" Capone. Tentando manter a família distante do crime, Capone chegou a trabalhar como contador em uma construtora, mas a tentativa de levar uma vida comum durou pouco.
O império em Chicago e a era da Lei Seca
Pressionado pelas suspeitas da polícia de Nova York sobre seu envolvimento em um homicídio, Capone aceitou o convite de seu mentor Johnny Torrio para se mudar para Chicago. Na nova cidade, o cenário mudou drasticamente com a promulgação da Lei Seca nos Estados Unidos em janeiro de 1920, norma que proibiu a fabricação, o transporte e a venda de bebidas alcoólicas em todo o território americano.
A proibição abriu as portas para o crescimento desenfreado do contrabando. Após o assassinato de James "Big Jim" Colosimo — tio de Torrio que se recusava a entrar no mercado do álcool —, Torrio assumiu o controle dos negócios da cidade e nomeou Capone como seu braço direito. Capone passou a administrar casas noturnas, bordéis e cassinos, garantindo porcentagens milionárias sobre os lucros do tráfico de bebidas.
Com uma fortuna em ascensão, Capone comprou uma mansão em Chicago e levou toda a sua família para morar com ele. Em 1924, o mafioso mostrou a força de seu poder ao interferir diretamente nas eleições locais do subúrbio de Cícero para garantir a vitória do candidato Joseph Klena, usando seus capangas para intimidar e agredir eleitores nas ruas. Durante o pleito tumultuado, seu irmão Frank Capone acabou sendo morto em um tiroteio contra a polícia.
A consolidação do poder e as guerras sanguinárias
O nome de Al Capone estampou as manchetes dos jornais pela primeira vez no caso do assassinato de Joe Howard, um criminoso que havia agredido o contador e amigo de Capone, Jake Guzik. Sem demonstrar qualquer receio das autoridades, Capone executou Howard à queima-roupa em público. Embora tenha sido apontado como principal suspeito, as testemunhas do caso misteriosamente desapareceram ou alegaram perda de memória, fazendo com que o mafioso fosse liberado por falta de provas.
A consolidação de Capone como o chefe supremo de Chicago ocorreu após uma violenta guerra contra a gangue Northsiders, formada por rivais irlandeses liderados por Dion O'Banion. Após O'Banion atrair Torrio para uma armadilha policial, Capone ordenou a execução do rival dentro de sua própria floricultura.
Em resposta, os sobreviventes da gangue rival tentaram assassinar Torrio, que ficou gravemente ferido. Aterrorizado com a violência das ruas, Torrio decidiu se entregar à polícia por acusações menores e, ao sair da prisão, cedeu todo o controle das operações para Al Capone antes de se mudar em definitivo para Nova York.
Capone assumiu o comando de uma máquina criminosa avassaladora, enfrentando embates constantes contra outros rivais e até mesmo ordenando o fuzilamento de antigos aliados que desviavam suas cargas de bebidas. Quando percebeu que a Lei Seca chegaria ao fim, ele diversificou seus negócios para a extorsão sistemática de comerciantes, cobrando taxas de "proteção" de cerca de 70% dos estabelecimentos da cidade.
O episódio mais sangrento dessa era ficou conhecido como o Massacre do Dia dos Namorados, ocorrido em fevereiro de 1929. Para eliminar seu rival Bugs Moran, Capone armou um plano enquanto tirava férias na Flórida para garantir um álibi perfeito. Homens disfarçados de policiais invadiram um depósito onde sete integrantes da gangue de Moran aguardavam um carregamento de uísque e os executaram com mais de 150 tiros. Embora Moran tenha escapado por ter se atrasado para o encontro, a brutalidade do massacre gerou comoção nacional e fez com que o governo federal colocasse Capone como alvo prioritário.
O declínio, a prisão em Alcatraz e os últimos dias
Sem conseguir reunir provas que ligassem o mafioso diretamente aos homicídios, as autoridades federais mudaram de estratégia. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos analisou antigos livros contábeis apreendidos em operações anteriores e descobriu uma imensa fraude financeira. Em 1931, Al Capone foi formalmente indiciado por sonegação de impostos.
Para evitar que o réu subornasse ou ameaçasse as testemunhas, o juiz do caso realizou uma manobra inédita no dia do julgamento, trocando todo o corpo de jurados na última hora. Capone foi condenado a 11 anos de prisão e ao pagamento de uma pesada multa.
Inicialmente enviado para a Penitenciária Federal de Atlanta, Capone continuou desfrutando de regalias graças à sua influência e dinheiro. No entanto, ao ter o esquema descoberto pelo Departamento de Justiça, ele foi transferido para a rigorosa penitenciária de Alcatraz, na Califórnia.
Em Alcatraz, a saúde de Capone deteriorou-se rapidamente. Diagnosticado com sífilis ainda nos primeiros anos de detenção, o ex-chefe do crime sofreu um grave declínio físico e cognitivo. Com o agravamento de seu estado de saúde e demonstrando bom comportamento, ele teve sua pena reduzida e passou seus últimos meses de pena internado em um hospital antes de ser libertado em 1939.
Al Capone viveu seus últimos anos recluso em sua mansão na Flórida, distante do poder e do temor que costumava provocar. Em 19 de janeiro de 1947, sofreu um acidente vascular cerebral e, dias depois, em 25 de janeiro, faleceu após um ataque cardíaco, aos 48 anos. Seu funeral em Chicago reuniu pouquíssimas pessoas, selando de forma melancólica o fim do homem que um dia governou o império do crime americano.
A figura histórica no imaginário popular
A trajetória de Al Capone ultrapassou as páginas dos jornais de época e se consolidou como uma das maiores referências culturais do século XX. Sua ascensão meteórica e a queda fulminante por um detalhe burocrático servem de estudo até hoje para historiadores, biógrafos e escritores de ficção policial. Mais do que um personagem de Hollywood, Capone foi a representação viva de uma era sombria da história americana, cuja vida real é frequentemente mais impressionante do que qualquer obra de ficção.
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