A literatura de true crime e o jornalismo investigativo frequentemente se debruçam sobre os capítulos mais sombrios da sociedade para tentar compreender a complexidade da natureza humana. Ao longo das últimas décadas, o Brasil foi palco de diversos eventos criminais de grande repercussão que não apenas estarreceram a opinião pública, mas também deixaram marcas profundas na história jurídica e social do país.

Relembrar esses episódios é uma forma de compreender a evolução das técnicas periciais, as falhas e avanços do sistema de justiça, além do papel fundamental da mobilização familiar no combate à impunidade. A seguir, confira cinco casos criminais marcantes que marcaram o imaginário coletivo brasileiro.

O trágico caso de Cláudia Lessin Rodrigues no Rio de Janeiro

Em julho de 1977, a cidade do Rio de Janeiro acompanhou o desfecho terrível do desaparecimento da jovem Cláudia Lessin Rodrigues, de 21 anos. O corpo da garota foi localizado por um morador próximo ao Rochedo do Chapéu dos Pescadores, na Avenida Niemeyer, apresentando marcas severas de agressão e preso a uma mala carregada de pedras.

A resolução inicial das pistas contou com um detalhe inusitado: um operário que pernoitava em uma guarita da região não conseguia dormir devido a uma forte dor de dente. Durante a madrugada, o trabalhador observou uma movimentação suspeita, anotou a placa de um veículo modelo Brasília e memorizou os traços dos envolvidos. A informação levou as autoridades aos nomes de Michel Frank, um empresário suíço-brasileiro, e seu conhecido George Kwh.

Apesar de a defesa alega que a jovem teria sofrido uma overdose acidental em um apartamento, os exames periciais desmentiram essa versão, comprovando violência física e ausência de substâncias no organismo da vítima. Michel Frank fugiu para a Suíça, onde nunca foi extraditado e acabou sendo morto anos mais tarde em um acerto de contas. Já George cumpriu uma pena branda por ocultação de cadáver. O caso permanece como um dos marcos mais emblemáticos da cronologia policial carioca na década de 1970.

A incansável busca por justiça no caso Lucas Terra

No ano de 2001, em Salvador, o jovem Lucas Terra, de 14 anos, desapareceu após informar aos pais que passaria a noite em um templo religioso no bairro do Rio Vermelho a convite do pastor Silvio Roberto Galiza. Dias após a denúncia do sumiço, um corpo carbonizado foi localizado em um terreno na Avenida Vasco da Gama, sendo confirmado semanas depois via teste de DNA como pertencente ao adolescente.

As investigações policiais apontaram comportamentos obsessivos do pastor em relação ao jovem, resultando na condenação inicial de Galiza. No entanto, anos mais tarde, o acusado rompeu o silêncio e apontou a cumplicidade de outros dois líderes da instituição: o bispo Fernando Aparecido da Silva e o pastor Joel Miranda Macedo.

O pai de Lucas, José Carlos Terra, travou uma batalha incansável por mais de duas décadas, chegando a denunciar a morosidade do processo perante organismos internacionais. Embora o pai tenha falecido em 2019 sem ver a conclusão dos trâmites, o desfecho judicial ocorreu em 2023 no Fórum Rui Barbosa no Estado da Bahia, culminando na condenação dos religiosos citados a 21 anos de prisão em regime fechado.

Leandro Bossi e as misteriosas ocorrências no Paraná

No início dos anos 1990, a cidade de Guaratuba, no litoral paranaense, virou o centro de uma série de investigações sobre o desaparecimento de crianças. Em fevereiro de 1992, o menino Leandro Bossi, de 7 anos, sumiu sem deixar rastros enquanto os pais trabalhavam. Pouco tempo depois, na mesma localidade, o garoto Evandro Caetano também desapareceu e foi encontrado morto em condições brutais num matagal.

As investigações da época tomaram rumos complexos e controversos, levando à acusação de figuras proeminentes da cidade — episódio que ficou conhecido na imprensa como o caso das "Bruxas de Guaratuba". Décadas mais tarde, reanálises jornalísticas e os próprios registros históricos do Caso Evandro levantaram sérias dúvidas sobre a validade dos depoimentos colhidos na ocasião, sugerindo a ocorrência de coerções e torturas contra os suspeitos.

No caso de Leandro Bossi, ossadas encontradas ainda nos anos 90 só foram conclusivamente identificadas por exames genéticos avançados no ano de 2022. O conjunto de episódios revelou um padrão alarmante de desaparecimentos não solucionados na região entre as décadas de 1980 e 1990, sugerindo a possível atuação de um agressor em série que nunca foi formalmente identificado pela justiça.

A tragédia de Ives Ota e a transformação do luto em esperança

Em agosto de 1997, a cidade de São Paulo foi abalada pelo sequestro do pequeno Ives Ota, de apenas 8 anos. O filho de um empresário do ramo de comércio foi levado de sua própria residência por um homem disfarçado de entregador. As negociações com a família se iniciaram rapidamente, mas a polícia acabou descobrindo uma teia criminosa que envolvia o próprio segurança particular da família, Paulo de Tarso Dantas, além de um policial e o executor do rapto.

Como a criança reconheceu o segurança assim que chegou ao cativeiro, os criminosos optaram por tirar a vida do menino de forma premeditada, ocultando seu corpo sob o piso de uma residência. Todos os envolvidos foram capturados e receberam severas condenações que ultrapassaram quatro décadas de reclusão.

Apesar da dor irreparável, os pais da criança fundaram o Movimento Paz e Justiça Ives Ota, uma organização dedicada a apoiar vítimas de violência e promover a cultura da não violência. Anos mais tarde, a mãe da vítima, Keiko Ota, foi eleita deputada federal e promoveu a criação da lei que instituiu o Dia Nacional do Perdão, transformando a memória do filho em um símbolo de engajamento social.

O assassinato de Mônica Granuzzo e o debate sobre a violência

Em junho de 1985, a estudante Mônica Granuzzo, de 14 anos, desapareceu após sair de casa no Rio de Janeiro para ir ao apartamento do lutador e modelo Ricardo Peixoto Sampaio. No dia seguinte, o corpo da adolescente foi localizado na beira de uma estrada na região do Horto, apresentando lesões graves incompatíveis com a versão inicial apresentada pelo suspeito.

Ricardo alegou que a jovem teria saltado voluntariamente da varanda. No entanto, o trabalho da perícia criminal reconstruiu a cena dos fatos: Mônica havia sido espancada e tentou escapar desesperadamente de uma investida violenta através da janela, vindo a cair do edifício. Dois amigos do agressor ajudaram a remover o corpo do local e a desová-lo em uma área de mata.

O caso provocou passeatas e comoção popular na capital carioca, gerando discussões intensas sobre a impunidade em crimes praticados contra mulheres. Ricardo foi julgado e condenado a 20 anos de prisão por homicídio, cumprindo parte da pena em regime fechado antes de obter liberdade condicional.

A importância do registro histórico e do jornalismo investigativo

Analisar episódios reais de crimes que marcaram o país é fundamental para que a memória das vítimas seja preservada e para que a sociedade permaneça vigilante quanto à eficácia do sistema judiciário. Seja na literatura, em documentários ou em reportagens especiais, o registro detalhado desses fatos ajuda a expor falhas estruturais, ao mesmo tempo em que destaca a força de famílias que se recusam a deixar o esquecimento vencer a justiça.

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